O POTE

Ele chegou em casa tarde e arremessou o molho de chaves sobre a mesa. Era um ruído característico e até o vizinho costumava saber de sua chegada. Gesto catártico, a carga da loucura do seu frenético cotidiano era jogada ali.

Um bilhete escrito com letras difíceis mas cuidadosas dizia que a secretária do dentista ligara novamente sobre sua revisão anual. Droga, estava postergando isso e sabia que precisava ir. Estava há uns dez meses enrolando. Droga, o ano passa rápido, que droga essa correria alucinada. O banheiro da sala estava fechado aguardando ele ter tempo de resolver o bombeiro hidráulico. Dona Ceiça se ofereceu pra organizar isso mas ele conhecia um cara bom e ele mesmo queria ligar. Era uma ponta de orgulho, de dignidade.

Droga, lembrou num relance rápido que precisava voltar no médico pra ver aquele ponto escuro que aparecera no exame. Já passara quase um ano também. O trabalho não deixava. Isso Dona Ceiça não podia cuidar pra ele. Toma jeito e marca o exame, cara. Mas o trabalho sempre se sobrepunha.

A chave jazia na mesa e passavam das 23h. Dona Ceiça deixava o jantar separado aguardando a chegada do esfomeado patrão após o sempre estressante e desgastante dia de trabalho. Ele abriu a geladeira. Encontrou a comida separada e pronta para ir ao micro-ondas. Dona Ceiça era tudo: administrava a casa. Deixava tudo limpo e cheiroso, a sala sempre arrumadíssima e com cheiro de lustra-móveis; a cama sempre impecavelmente arrumada, lisa e com lençóis retos, como na casa de sua avó. Sua casa era muito bem organizada. Não parecia casa de um solteiro.

A comida, comeu-a fria, saboreando. Perto da meia noite, antes de fechar a porta, afagou Lêmore, seu cão indeterminado de pelagem branca. Deu-lhe também a cara para a lambida amiga e mandou o bom menino ir para sua casinha dormir, dando tapinhas e afagos em suas costelas.

O despertador tocou às 6:30 e Walter pulou para o banho. Nesse dia ele chorou sob a ducha, sem motivo, e aquilo era apenas uma descarga do stress. No geral achava-se feliz.

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Haviam sido três reuniões e um sanduíche quando o telefone tocou.

– Aqui é o filho de Dona Ceiça. O senhor viu que ela não foi hoje, né?

– Ela não foi hoje? E-eu saí cedo de casa. O que houve? Ela está bem?

– Ela levou um tombo no ônibus, seu Walter, quebrou o fêmur. Está no hospital, vai ter que operar, por causa da idade. Ela vai ficar um bom tempo sem poder ir trabalhar. Estava preocupada com o senhor e me pediu pra ligar.

No oitavo dia o caos já estava no auge e o jantar vinha sendo sanduíche com presunto pegajoso, ou coisa parecida. A casa era um pandemônio e inúmeros potes na geladeira prometiam criar novas formas de vida em breve. Precisou beber água, mas as garrafas estavam vazias. Lembrou-se de que seria bom trocar o lençol da cama. Poderia lavá-lo junto com suas roupas que pretendia levar num saco para a lavanderia que havia ao lado de seu trabalho. Dormiu mal naquela noite. Lêmore latia muito nos últimos dias. Lêmore latiu e uivou muito naquela noite. Sentia saudade de Dona Ceiça.

Após seu banho matinal lembrou de retirar as garrafas vazias da geladeira. Iria enchê-las à noite, quando chegasse em casa. Agora não dava. Estava atrasado. Saiu e se abaixou para afagar Lêmore, que ainda parecia muito sonolento. “Não dormiu nada, hein, rapaz?”

Foi um dia de ponte aérea. Chegou bem tarde. Era sexta e amanhã poderia descansar. Entrou pelo portão e Lêmore não veio. Ele não viera fazer-lhe festa desde terça ou quarta. Estava muito dorminhoco.

Mas percebeu que Lêmore estava esticado ao chão e nem sequer levantou as orelhas. Ele se abaixou e tocou o animal. Sacudiu Lêmore e percebeu que o cão estava morto.

Desespero.
Totalmente desnorteado, levantou-se e ficou parado aguardando alguma inspiração para o próximo passo. Levou as mãos à cabeça e fez um beiço como o de menino, e seus olhos se molharam. A passos trôpegos seguiu um instinto antigo e foi até o tanque lavar suas mãos pois tinha mexido num cadáver e sua avó sempre lhe ensinara isso.

Chutou sem querer um pote seco e vazio que ficava sempre no chão, perto do tanque. “A água! Meu Deus, a água!!!”

Ainda sem entender, abriu a torneira e sua vista embaçada vislumbrou um objeto vermelho e redondo lá dentro. Secou os olhos com as costas das mãos e então viu o pote de ração, deixado ali dentro do tanque, lavado, aguardando ser servida a próxima refeição.

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Vencedor no Prêmio Miró de Literatura 2014 (publicação em Antologia)

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